Thursday, August 25, 2005
O TEMPO E O AMOR
Já faz tempo que eu queria mandar esse texto, um sermão do Padre Antônio Vieira, para uma pessoa. O tempo passou e eu acabei engavetando. Agora desengaveto e coloco no ar o texto!
O primeiro remédio é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a velho. De todos os instrumentos, com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já tira, embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que antes não havia; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda a esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.
Pe Antonio Vieira